Desenvolvimento e saúde mental da criança adotada por casais homoafetivos

No último semestre finalizei meu Trabalho de Conclusão de Curso juntamente com minhas colegas Isabela Garcia e Fernanda Zanon. Abaixo segue nosso trabalho na íntegra, conforme aprovado pela banca.

AUTORAS:

Fernanda Zanon Ribeiro

Gabriela Hesz Pauli

Isabela Garcia de Macedo Marçal

ORIENTADORA:

Ma. Juliana dos Santos Rodrigues.

São Bernardo do Campo, 2017.

Compreensão do Desenvolvimento e Saúde Mental da Criança Adotada por Casais Homoafetivos

 

Resumo

As mudanças que ocorreram na sociedade proporcionaram também alterações na constituição da família, dando abertura a novos modelos familiares contemporâneos.

família proporciona o primeiro espaço de socialização do indivíduo e é muito importante para o desenvolvimento humano e saúde mental. Este trabalho teve como objetivo identificar e descrever aspectos do desenvolvimento psicossexual e da saúde mental da criança adotada por casais homoafetivos. Para a realização deste trabalho foi feito um levantamento bibliográfico em bases de dados como o Scielo, Bireme, BVS-PSI, Lilacs, entre outros, utilizando as seguintes palavras chaves: adoção, casais homoafetivos, funções parentais, desenvolvimento infantil e psicanálise.

O material coletado foi separado em quatro capítulos: “Sobre a adoção no Brasil”, com o intuito de entender questões legais do funcionamento de adoção no país; “História da família”, descrevendo como foram as transições dos modelos familiares até a formação atual, dada a importância da família na vida da criança; “Desenvolvimento da criança”, no qual foram descritas as fases de desenvolvimento psicossexual da criança de acordo com a teoria psicanalítica; e “Desenvolvimento psicossexual e saúde mental da criança adotada por família homoafetiva”, no qual foi descrito, por meio de artigos levantados, como se dá o desenvolvimento de uma criança adotada por casais homoafetivos, a dinâmica e importância das funções parentais e foram apresentados os resultados de trabalhos que discutem se haveria algum prejuízo no desenvolvimento destas crianças.

A partir dos artigos consultados foi possível concluir que a adoção por casais homoafetivos não compromete o desenvolvimento saudável da criança, já que o sexo dos cuidadores não determina a dinâmica das funções parentais. Também foi constatado que o preconceito da sociedade frente a estes casais é um dos fatores que poderia influenciar na saúde mental destas famílias. Sendo assim, é importante ressaltar a necessidade de um profissional da área da Psicologia neste processo, realizando um acompanhamento das famílias antes, durante e após processo de adoção, com o intuito de promover o desenvolvimento saudável da criança.

Palavras-chave: adoção, casais homoafetivos, funções parentais, desenvolvimento infantil e psicanálise.

Apresentação

O Projeto de Lei 6583 de 2013, que propunha criar um “Estatuto da Família”, levantou uma grande discussão na sociedade brasileira a respeito do conceito de família. Na área da Psicologia, este debate também esteve presente e evidenciou a necessidade de uma maior produção científica a respeito das funções paterna e materna, e como esse novo modelo familiar vem se constituindo.

A Psicologia tem uma grande importância nesta questão, na medida em que nos permite estudar e compreender como outras formas de parentalidade podem ser exercidas sem ser consideradas anormais ou prejudiciais ao desenvolvimento da criança. Falando mais especificamente sobre a Psicanálise, é interessante entender como esta abordagem compreende esses novos modelos parentais perante o desenvolvimento psicossexual e a saúde mental das crianças adotadas por famílias homoafetivas.

No final do século XX, as questões sobre orientação sexual começam a ser discutidas, juntamente com os direitos dos homossexuais. No Brasil, um dos grandes marcos deste movimento ocorreu em 1985, com a retirada do termo “Homossexualismo” do Catálogo de Doenças do Conselho Federal de Medicina (CFM).

O termo posteriormente também foi retirado da Classificação Internacional de Doença (CID) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1995. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) determinou, através da Resolução n°1/1999, que os profissionais de Psicologia não podem realizar qualquer intervenção que tenha como intuito a patologização da homossexualidade.  

Estas mudanças possibilitaram novas configurações de família, e a Psicologia tem um importante papel em estudar os diversos aspectos que envolvem esta nova configuração familiar, dentre eles a família homoafetiva com filhos.

Quando uma criança é abandonada ou retirada da família nuclear, a Justiça tem como primeiro objetivo aproximá-la de um membro de sua família próxima, como avós, tios e primos, e em último caso permite a adoção de fato, o que envolve outras questões burocráticas. De acordo com os dados consultados no Cadastro Nacional de Adoção no primeiro semestre de 2017, o Brasil tem em média 38 mil famílias aguardando na fila para adotar uma criança, enquanto há cerca de 7 mil crianças e adolescentes que aguardam uma família. Apesar do número de famílias ser muito maior que o número de crianças na espera, um dos fatores que faz com que este processo seja mais longo do que o esperado é o número de restrições impostas pelos pretendentes.

Em torno de 85% das famílias buscam crianças que tenham no máximo 5 anos, e 81% das crianças possuem entre 6 e 17 anos. Apenas 0,07% das famílias concordam em adotar crianças com idade de no máximo 17 anos. Cerca de 20% dos pretendentes aceitam somente crianças brancas, que são apenas 34% das crianças que aguardam adoção.

De acordo com o último Censo realizado pelo IBGE, em 2010, no Brasil existem cerca de 60 mil famílias declaradas como homoafetivas. Apesar de não terem sido encontrados dados específicos a respeito das exigências impostas por casais homossexuais, alguns profissionais da área de Direito que atuam neste setor afirmam que as famílias homoafetivas no geral têm critérios mais abrangentes em relação ao perfil das crianças adotadas.

De acordo com reportagem publicada no portal da Revista Carta Capital em 2015, a diretora jurídica da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção, Silvana do Monte Moreira, afirma que casais homossexuais impõem menos restrições para a adoção que os heterossexuais, e costumam adotar os perfis que são menos desejados, como crianças mais velhas ou irmãos (ESTARQUE, 2015).

Neste estudo, cabe clarificarmos o uso dos termos “família homoparental” e “família homoafetiva”. Apesar de não considerar o termo “família homoparental” como o mais adequado, por sua ênfase na orientação sexual dos cuidadores, Zambrano (2006) indica que seu uso nos estudos atuais é importante na medida em que coloca em evidência um assunto de grande relevância na sociedade atual e dá nome a uma família que não era considerada existente ou que vivia à margem da sociedade há alguns anos.

Objetivo

Identificar e descrever aspectos do desenvolvimento psicossexual e da saúde mental da criança adotada por casais homoafetivos.

Método

Este trabalho trata-se de um estudo bibliográfico sendo, portanto, um estudo descritivo. Primeiramente foi descrito como se dá o processo de adoção no Brasil atualmente. Para isso, foram consultados o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), sites de instituições que tratam do tema, leis federais e dados do Conselho Nacional de Justiça.

Após o levantamento destas informações, foi descrita a história da família ao longo dos anos, com o intuito de apresentar as mudanças que ocorreram com o passar dos séculos e como a mesma pode vir a se configurar na atualidade. Nesta etapa foram utilizados como base os trabalhos de Philippe Ariès e autores da área da Psicologia que falam sobre o tema, visando entender as principais características do conceito de família, visto sua importância no desenvolvimento da criança. Em seguida, foi descrito como se dá o desenvolvimento da criança, sendo apresentadas as fases do desenvolvimento psicossexual de acordo com a abordagem psicanalítica, tendo como principais autores Sigmund Freud e Melanie Klein. Por fim, foi realizado um levantamento bibliográfico por meio de bases de dados como o Scielo, Bireme, BVS-PSI, Lilacs, entre outros, utilizando as seguintes palavras chaves: adoção, casais homoafetivos, funções parentais, desenvolvimento infantil e psicanálise.

Dos artigos encontrados, fizeram parte deste trabalho aqueles que apresentavam relação direta com o tema, sendo da abordagem psicanalítica, e tratando do desenvolvimento da criança. Ressaltamos que trabalhos com base em outras abordagens teóricas foram incluídos na medida em que seus resultados corroboraram para a compreensão apresentada pela teoria escolhida.

Os artigos selecionados foram utilizados com o intuito de identificar e descrever como se dá o exercício das funções parentais por casais homoafetivos em crianças adotadas e como isso reflete no desenvolvimento psicossexual e saúde mental da criança.

Sobre a adoção no Brasil

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), subseção IV, para adotar é necessário que todas as possibilidades da criança ou adolescente de voltar para a família sejam esgotadas e o mesmo tenha menos de dezoito anos.

Para adotar, o proponente deve ter no mínimo 18 anos; ter uma diferença de pelo menos 16 anos em relação ao sujeito adotado e não ser irmão nem ascendente da criança ou adolescente em questão. Não há imposição de critério em relação ao estado civil, porém em processo de adoção conjunta é essencial que os adotantes tenham uma união estável ou sejam casados civilmente.

Segundo Futino e Martins (2006), a adoção não ocorre apenas no âmbito jurídico, mas também há psicólogos e assistentes sociais que participam deste processo e são fundamentais para a tomada de decisões. Esses profissionais têm como objetivo avaliar se as necessidades da criança ou do adolescente serão supridas (CARTOXO, 2016). 

De acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção consultados em janeiro de 2017, o Brasil tem cerca de 38 mil famílias na fila de espera para adoção. Destes, apenas 0,07% aceitam adotar crianças com até 17 anos, ou seja, não estabelecem restrições quanto a idade da criança ou adolescente.

No Cadastro Nacional de Adoção há cerca de 7 mil crianças e adolescentes cadastrados que estão à espera da adoção, sendo que alguns passam por processos muitas vezes longos na Justiça. Já o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) indica que atualmente no Brasil mais de 46 mil crianças e adolescentes encontram-se em abrigos.

Quando uma criança está em situação de abandono, o Estado busca primeiramente aproximá-la de sua família biológica, e quando não é possível ficar com os pais, a Justiça tenta aproximá-los de avós, tios, primos – explorando todas as possibilidades antes de conceder a adoção.

Apesar de o número de famílias que deseja adotar ser maior do que o número de crianças na fila de adoção, a demora neste processo acontece por conta dos critérios impostos pelas famílias proponentes. Por exemplo, 85% das famílias deseja adotar crianças que tenham no máximo 5 anos, porém 81% das crianças têm entre 6 e 17 anos. 

Outro problema é a falta de estrutura do poder judiciário, que não consegue dar conta da quantidade de processos pendentes (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017). No Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990) não há menção sobre a orientação sexual dos pais no processo de adoção, nem uma determinação de que os pais devem ser de sexos diferentes.

Portanto, legalmente não há impedimento para a adoção por casais homossexuais, já que a união estável para pessoas do mesmo sexo é reconhecida no Brasil desde maio de 2011, e o casamento de gays e lésbicas foi regulamentado em 2013.

A presidente da Comissão de Diversidade Sexual e Homofobia da seção paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Adriana Galvão (2013), afirma que o processo de adoção para casais homoafetivos é o mesmo dos heterossexuais, incluindo os mesmos direitos e deveres.
O Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo (GAASP) registrou em 2016 que 10% de seus associados são casais homoafetivos com a intenção de adotar (UOL, 2016). Cerca de 20% das adoções no último ano foram realizadas por casais homoafetivos e 18% das crianças adotadas por estas famílias têm até 10 anos de idade. De acordo com os dados do Cadastro Nacional de Justiça, apenas 1% das famílias proponentes em geral aceita crianças com esta idade.
O processo de adoção por famílias homoparentais já é estudado no Brasil. Farias (2007) desenvolveu uma pesquisa entrevistando onze psicólogos que atuam na área jurídica em fóruns localizados em cidades do interior do estado de São Paulo. O estudo foi realizado com o objetivo de investigar a concepção de psicólogos judiciários diante de situações de adoção em que o adotante assuma uma orientação sexual homossexual.

Para a realização deste trabalho a autora utilizou uma entrevista dirigida com dez questões, sendo que a coleta de dados ocorreu individualmente e em um ambiente neutro, e todos os relatos foram gravados para transcrição. Após a análise e discussão dos resultados, a autora concluiu que os psicólogos jurídicos têm dúvidas sobre os procedimentos que devem ser seguidos em casos de solicitações de adoção por casais homoafetivos, sendo que em alguns relatos a autora também identificou a expressão de opiniões pessoais a respeito do processo de adoção por estas famílias e de falta de conhecimento sobre o assunto tratado, o que poderia influenciar nas avaliações psicológicas realizadas por esses profissionais.

De acordo com a pesquisa, os profissionais utilizam os mesmos procedimentos para casais heteroafetivos e homoafetivos, mas nos relatos a autora pode notar que os psicólogos assumem uma postura mais rigorosa em relação às famílias homoafetivas, buscando, por exemplo, identificar os papéis parentais estabelecidos para cada integrante do casal. Farias (2007) conclui que possivelmente a origem desse problema é a falta de produção científica sobre esse assunto, algo que considera muito importante, principalmente no que diz respeito à reflexão contínua destes psicólogos judiciários diante da responsabilidade de seu trabalho e as avaliações psicológicas que realizam no Poder Judiciário.

História da Família

Partindo da ideia que a criança adotada é acolhida em uma nova família, a compreensão de funcionamento deste grupo é fundamental para que possamos falar sobre o desenvolvimento da criança. Segundo o dicionário Michaelis, família é o “conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto” (MICHAELIS, 2017).

Outra definição apresentada pelo dicionário é a de “pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação ou mesmo adoção; parentes, parentela” (MICHAELIS, 2017).

Já a Constituição da República Federativa do Brasil define no Cap. VII – Art. 226 que a “família é a base da sociedade, tem proteção especial do Estado” (1988/2017, p.171), e em seguida no parágrafo 3o descreve que é entendida e reconhecida como família a união estável entre uma mulher e um homem, e também reconhece a família monoparental, constituída por somente um dos progenitores e o descendente.

Outra definição que consideramos relevante apresentar é a proposta pelo Catolicismo, visto que de acordo com o Censo de 2010 do IBGE, 64,6% da população brasileira se declara católica. O catolicismo apresenta a seguinte descrição: “Um homem e uma mulher, unidos em matrimônio, formam com os seus filhos uma família. Esta disposição precede todo reconhecimento por parte da autoridade pública e impõe-se a ela, e deve ser considerada como a referência normal” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, s/d).

Este é um tema muito estudado e se configura de diferentes maneiras ao longo da história. De acordo com Araújo (2008), para definir a família, é necessário compreendê-la como uma instituição determinada historicamente e que expressa as configurações de organização social de sua época. Ela é configurada de diferentes maneiras ao longo dos séculos para atender às necessidades sociais, econômicas, culturais e afetivas de acordo com o momento histórico.

Segundo Ariès (1978), o conceito de infância ainda não existia na sociedade medieval (até o séc. XV), ou seja, neste período a família era constituída pelo homem, trabalhador, e pela mulher, dona do lar, enquanto as crianças eram vistas como pequenos adultos. Já do século XV ao XVI e início de XVII, as representações da família mostravam uma relação mais íntima entre seus integrantes. Podemos encontrar nos trabalhos artísticos da época adultos alimentando as crianças, brincando com elas e todos fazendo uma refeição juntos, indicando laço e vínculo entre seus integrantes.

autor também afirma que nesta época algumas obras apresentavam famílias que, além da constituição “pai, mãe e filho”, também mostravam a participação dos criados, porém havendo uma separação entre as mulheres e os homens.

Neste período a criança passa a se diferenciar dos adultos, com a criação de trajes característicos, e surge também um maior reconhecimento de sua identidade própria e ingenuidade, numa atitude que o autor chama de “paparicação”.

Nessa época, a educação da criança ocorria no convívio com os adultos da família a que ela pertencia até cerca dos 7 anos. Porém, após esta idade, os meninos e meninas eram enviados para a casa de outras pessoas, para aprenderem os afazeres domésticos obrigatórios. Eles retornavam para suas casas após alguns anos, entre 14 e 18 anos. Sendo assim, os pais tendiam a não desenvolver fortes vínculos com seus filhos, por saberem que logo partiriam.

A partir do século XVII, iniciou-se uma transformação nesta dinâmica familiar, pois as escolas passaram a ser um pouco mais acessíveis. Portanto, as famílias deixaram de enviar seus filhos para a casa de outras pessoas e passaram a levá-los à escola. Com isso, o vínculo entre os membros das famílias passou a se fortalecer, e a responsabilidade de acompanhar e supervisionar a aprendizagem da criança foi redirecionada à família. O autor afirma que o sentimento de família que existe na Idade Moderna é oriundo desta mudança que ocorreu na forma de se educar e de se vincular às crianças (ARIÈS, 1978).

Para a psicanalista Roudinesco (2003), existem três grandes períodos na evolução da família. A família denominada tradicional tinha como principal objetivo assegurar a transmissão do parentesco, por meio de casamentos arranjados. Já a família moderna, que surge entre os séculos XVIII e XX, é baseada na ideia de amor romântico. Portanto, ela se constitui como uma forma de articular os desejos carnais e sentimentos. Por fim, na década de 1960, temos a família contemporânea ou pós-moderna, na qual os indivíduos buscam relações íntimas ou de satisfação sexual, sendo que os divórcios e separações passam a ser mais frequentes.

Segundo Baranoski (2016), existem duas formas de família: a biológica, que é constituída por pais e filhos, com uma ligação sanguínea; e a substituta, que é formada por conexões afetivas e/ou jurídicas, proporcionando à criança ou adolescente, órfãos ou abandonados, o direito a uma convivência familiar e comunitária. Para autora, essas relações e vínculos são essenciais para o desenvolvimento humano saudável e para que esse indivíduo tenha seus direitos como cidadão garantidos. Porém, no Brasil, algumas crianças e adolescentes acabam não tendo a possibilidade de convivência familiar e comunitária, portanto permanecem em instituições de abrigo até que completem a maioridade.
Amazonas e Braga (2006) afirmam que os papéis dos membros da família vêm mudando ao longo dos anos, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, em que a mulher começou a fazer parte do mercado de trabalho. Assim, cuidar do bebê, que antes era praticamente sua total responsabilidade, passou a ser uma tarefa compartilhada pelo pai, avós e outros membros da família. E com essas mudanças, o exercício da parentalidade também passou a mudar. Segundo os autores, os lugares masculinos e femininos na família atualmente não são necessariamente os ocupados por homens e mulheres.

Baranoski (2016) afirma que “reconhecer o direito dos homossexuais para a constituição da família (homoafetiva) significa reconhecer que o Estado garante as liberdades fundamentais de pensamento e de expressão, reconhecendo efetivamente a cidadania dos homossexuais e não apenas formalmente, atos esses compatíveis com um Estado que se intitula laico” (BARANOSKI, 2016, p. 79 – 80).

No Brasil, no dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que casais homossexuais formam uma entidade familiar, sendo que se estiverem em união estável possuem os mesmos direitos e deveres das famílias heterossexuais. Em 25 de outubro de 2011, o Superior Tribunal de Justiça concedeu o direito ao casamento a pessoas do mesmo sexo. E em 16 de maio de 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou a Resolução n°175, que estabelece que as autoridades competentes devem realizar a celebração do casamento civil ou a conversão de união estável para casamento para pessoas do mesmo sexo. De acordo com o IBGE, da data de publicação da Resolução até o fim do ano de 2014 foram realizados 8.555 casamentos de pessoas do mesmo sexo (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016).
Mesmo com as diversas mudanças que a sociedade sofreu, a família ainda pode ser entendida como o “centro de estruturação da sociedade” em muitos aspectos. Porém, o grupo que antes era visto como formado pela relação entre filho(s), pai e mãe, foi se modificando, permitindo novos arranjos familiares, principalmente com a possibilidade do divórcio e das famílias homoparentais (ZAMBRANO, 2006).

Desenvolvimento da Criança

A partir das informações levantadas, entendemos que a família é um fator fundamental no desenvolvimento da criança. Para que seja possível compreender como se dá este processo no caso de crianças adotadas por famílias homoafetivas, é necessário primeiramente descrever o processo de desenvolvimento da criança de acordo com a teoria psicanalítica. Para tal, iniciaremos retomando os conceitos principais de Freud a respeito do funcionamento psíquico do ser humano e como ele se desenvolve.
De acordo com a teoria psicossexual de Freud (1923/1990), haveriam duas diferentes pulsões na instância psíquica: Eros, o instinto de amor, sexo e autopreservação; e Tanatos, que abrange os instintos agressivos, sádicos e de morte. A organização destas forças internas constitui a personalidade do sujeito, e sofre grande influência das figuras parentais, o principal meio externo da criança em seus primeiros anos.
O Id é uma instância psíquica que não tem contato com a realidade e se esforça para obter prazer e satisfazer os desejos básicos. Não há lógica, razão ou organização no Id, que recebe a energia dos instintos e busca descarregá-la. O Ego é definido como uma parte do Id que foi modificada pela influência do mundo externo, e tenta aplicar esta cultura ao Id, buscando substituir o princípio do prazer pelo princípio da realidade. O Ego seria a instância psíquica que faz uma organização coerente dos processos mentais, e controla “a descarga de excitações para o mundo externo” (FREUD, 1923/1990, p. 11).

Por fim, o Superego é guiado por princípios moralistas, é considerado o “ideal do eu”, e é responsável pela repressão – ele nos diz o que devemos e o que não devemos fazer. A partir da organização destas forças internas, a pulsão de amor e libido (Eros) e agressividade (Tanatos) se dá a constituição da personalidade do sujeito, que tem grande influência principalmente das figuras parentais, que são principal meio externo da criança em seus primeiros anos.
Freud entende o desenvolvimento psicossexual da criança em fases, de acordo com a organização da libido. No início da fase oral, o Ego ainda é frágil e conhece os investimentos objetais, aprovando-os ou afastando-os através da repressão. Assim, o Ego vai aprendendo a controlar o Id e aprofundar suas relações. Os efeitos dessas identificações iniciais, logo nos primeiros anos de idade, são duradouros, e perpassam a identificação do sujeito com a primeira figura materna e paterna.

A figura do pai é introjetada no Ego e forma o núcleo do Superego, assumindo a severidade e proibição contra o incesto. Nesta fase o sujeito tem sentimentos ambivalentes em relação ao objeto amoroso, a figura materna, e seu Ego começa a desenvolver a capacidade de se defender do meio externo.

A segunda fase de desenvolvimento seria a fase anal que, de acordo com Freud (1936/1990), é caracterizada pela satisfação obtida por meio de comportamentos agressivos e da função de excreção. O terceiro estágio é a fase fálica, na qual se dá o Complexo de Édipo. Neste estágio de desenvolvimento, a área genital é a principal zona de prazer da criança.

Para Freud (1936/1990), nesta fase o menino desenvolve identificação com sua figura paterna e desejo sexual por sua figura materna, porém aos poucos passa a ver a figura paterna como rival. Já para as meninas, na fase pré-edípica a criança inicialmente sente desejo pela mãe, porém passa a culpá-la por ter nascido sem um pênis. Esta decepção faz com que a libido seja deslocada para o pai, que poderia lhe aliviar essa falta através de um bebê (FREUD, 1923/1990). A respeito deste tema, é importante ressaltar que os estágios de desenvolvimento não são estanques, não se iniciam ou encerram em determinada faixa etária, sendo específicos para cada indivíduo. Da mesma maneira, é possível que, ao decorrer da vida, o sujeito viva experiências ou tenha reflexões que o permitem ressignificar vivências anteriores (ZIMERMAN, 2004).
Com o desenlace do Complexo de Édipo a criança entra então no chamado período de latência, em que há repressão do impulso sexual e suspensão do desenvolvimento psicossexual. Nesta etapa a libido está voltada para outros setores da vida, como escola e vida social não sexual. Por fim, na adolescência se dá o último estágio, chamado genital, no qual se dá a organização sexual definitiva do sujeito (1936/1990).
O desenlace do Complexo de Édipo para Freud (1923/1990) se dá independentemente da atuação das figuras materna e paterna, mas da disposição sexual do sujeito, considerando sua bissexualidade. Em ambos os sexos, a força das disposições sexuais das figuras parentais (seja masculina ou feminina) é o que determina se, no desfecho do Complexo de Édipo, a criança terá uma identificação com o pai ou com a mãe. O desenvolvimento da infância toma o curso de um desligamento cada vez maior dos pais, e a significação pessoal das figuras paternas para o Superego passa a ficar em segundo plano.
A psicanalista Melanie Klein se apoia nas ideias freudianas de concepção das instâncias psíquicas e desenvolvimento, porém existem outras descobertas neste entendimento. Segundo Klein (1957/1991), existem duas atitudes que sempre estiveram presentes na vida dos indivíduos: inveja e gratidão.

A inveja seria proveniente dos impulsos destrutivos, e surge desde o começo da vida do sujeito, afetando a relação com a mãe, é o desejo de tirar algo do outro ou de destruir. Klein afirma que “Parece que uma das consequências da inveja excessiva é um aparecimento prematuro da culpa” (KLEIN, 1957/1991, p. 226).

Para a autora, desde o momento do nascimento o indivíduo já possui um Ego primitivo, sendo suficiente para experienciar situações ansiogênicas, utilizar mecanismos de defesa e formar relações de objeto primário real ou na fantasia psíquica. Porém ele ainda é uma estrutura que não possui uma organização, mas uma tendência de desenvolvimento e de integração. No entanto, devido ao instinto de morte e às ansiedades, essa tendência de integração é abafada com o intuito de defender o psiquismo do indivíduo.

Essas ansiedades são oriundas de alguns conflitos internos e externos no qual o bebê está exposto desde o parto, como instinto de morte e de vida, e situações do meio externo que também lhe apresentam essa ambivalência. Por exemplo, o seio que oferece conforto (alimento) é o mesmo que lhe traz desconforto (fome na sua ausência).
O seio passa a ser algo que pode destruir ou privar o indivíduo de obter seus desejos, ou seja, algo prejudicial ou ameaçador ao Ego, e surge um sentimento de perseguição (paranoide). Para Klein (1946/1991), ao ser exposto a essas circunstâncias de desconforto, o Ego projeta uma parte referente da pulsão de morte e agressividade no objeto externo original, o seio materno, que é atribuído às experiências de privação, frustração e sofrimento. Porém, simultaneamente a esse processo, o Ego também projeta a sua libido e instinto de vida, neste mesmo objeto que lhe oferece o alimento, criando assim um objeto ideal que tem como função satisfazer as necessidades do Ego de autopreservação, e é relacionado a experiências prazerosas e gratificantes, como alimentação e carinho. Sendo assim, há duas percepções distintas do mesmo objeto primário: o seio persecutório e o seio ideal.
O objetivo do Ego é se manter vivo e intacto, e busca introjetar e se identificar com o objeto ideal, para mantê-lo próximo, ansiando por uma espécie de simbiose. Paralelamente, o Ego projeta sua agressividade no objeto persecutório com o intuito de se proteger de toda a agressividade produzida pelo self e pelo meio externo. Nesta posição, o Ego sofre com o medo de não ser capaz de se proteger e ser invadido e aniquilado pelo objeto persecutório, o que destruiria também o objeto ideal.

Melanie Klein (1957/1991) nomeou essa posição como esquizo-paranóide, pois esquizo significa dividido, cindido e separado, essa visão ambivalente do Ego sobre os objetos. E a palavra paranoide refere-se à tendência persecutória, sentimento vivido pelo Ego ao decorrer dessa fase.
Segundo Melanie Klein (1946/1991), as posições de desenvolvimento vão variar de acordo com as vivências experimentadas pelo indivíduo ao longo de toda a sua vida, mas se levarmos em conta que as condições são favoráveis para o desenvolvimento, o bebê se sentirá muito mais semelhante ao objeto ideal do que ao persecutório.

Essa aproximação também decorre de um amadurecimento fisiológico e psíquico do próprio Ego. Sendo assim, o Ego se sentirá muito mais potente em cuidar e defender a si próprio e ao seu objeto ideal, passando a diminuir a sua projeção do objeto mau, já que o mesmo está enfraquecido. Ou seja, ao fortalecer o Ego e aumentar sua resistência aos instintos de morte, ele passa a diminuir a projeção e a lidar com essa agressividade de maneira interna, e começa a ocorrer um movimento de integração do Ego.
É neste momento de reintegração que se inicia o que Melanie Klein (1946/1991) denominou como posição depressiva, na qual o bebê passa a lidar com um objeto total e a se relacionar com essa totalidade. Essa passagem é notada quando o bebê começa a reconhecer a mãe, o que significa que a vê como um objeto completo, inteiro. Portanto, nessa posição o bebê se dá conta de que o objeto persecutório e o ideal estão integrados em uma mesma pessoa, sendo assim o objeto que lhe frustrava e lhe causa dor é o mesmo que o alimentava e que lhe proporcionava prazer.

Essa ambivalência gera as principais ansiedades dessa posição, pois o sujeito entende que em alguns momentos ele odiou e tentou destruir algo que ama muito e do qual necessita para viver.

Nessa posição o bebê passa a introjetar bem mais do que projetar, pois como percebe que necessita vitalmente desse objeto (figura materna) completo, ele tenta incorporá-lo e possuí-lo ao máximo, na tentativa de protegê-lo do meio externo e de suas próprias investidas agressivas. Neste processo, o bebê passa a se sentir exposto a um desespero depressivo, pois nesta tentativa de introjetar o objeto, ele tem a fantasia de que o devorou. Há uma fantasia de que a figura materna não está mais disponível no meio externo, apenas no interno, e essa culpa lhe suscita sentimentos depressivos (KLEIN,1946/1991).

Porém esses sentimentos depressivos também fazem com que o indivíduo comece a apresentar um sentimento de reparação para com o objeto destruído que ele tanto ama. Da mesma forma que o ódio foi forte o suficiente para destruir o objeto, o sujeito se entende como forte o suficiente para reconstruí-lo com seu amor. 

Para a autora, a posição depressiva é de suma importância para o desenvolvimento do indivíduo, porque quando o Ego passa a ser mais integrado, começa a surgir a consciência de si e dos objetos. Ele também toma consciência do que é realidade externa e do que são as fantasias e impulsos internos.

Com a elaboração das mudanças ocorridas nessa posição, o indivíduo passa a desenvolver sentimentos pelas pessoas de formas distintas e separadamente; e consegue distinguir seus instintos, compreender a responsabilidade por eles e apresentar culpa pelo resultado de sua liberação. Se há um desenvolvimento de maneira satisfatória, o indivíduo adquire a habilidade de se vincular às pessoas e às coisas, aprende a abstrair, desenvolve a forma de pensar e há um grande amadurecimento do Ego. Os objetos que foram introjetados na posição esquizo-paranóide formam as primeiras bases para o Superego, sendo que os objetos persecutórios são vivenciados pelo indivíduo de forma punitiva e impiedosa, e o objeto ideal se torna o eu-ideal do Superego (KLEIN,1946/1991).

Segundo Klein (1946/1991), o sentimento de amor e gratidão surgem no bebê como uma reação aos cuidados e amor dispensados pela figura materna. Ele se inicia como um amor voltando ao seio bom, e evolui para um sentimento de amor por ela como pessoa. Conforme o bebê sente o conflito entre ódio e amor, o medo de perder o ser amado surge e é um importante passo no desenvolvimento da criança.

A culpa e o sofrimento passam a fazer parte do amor e o influenciam profundamente. Há um forte sentimento de se sacrificar para reparar e ajudar a pessoa querida que foi machucada na fantasia, de tentar fazê-la feliz por se sentir responsável e preocupado por este outro sujeito. Para a autora, a capacidade de se identificar com outra pessoa é o elemento mais importante nos relacionamentos humanos, pois é ela que permite que coloquemos de lado nossos próprios sentimentos e desejos para trazer em primeiro plano os interesses e desejos do outro.

Quando nos identificamos com o outro e sacrificamos nossos desejos para dar lugar aos seus interesses, nos comportamos como pais cuidadosos e fazemos com o outro o que nossos pais faziam conosco, ou o que gostaríamos que tivessem feito, recriando e experimentando o amor e carinho que desejávamos de nossos pais. Segundo Mandelbaum (2008), “a via régia dos processos de transmissão psíquica é a identificação” (MANDELBAUM, 2008, p. 112). Quando nos identificamos com o outro e seus desejos, fazemos relações com nosso próprio mundo interno e elaborações psíquicas, sendo assim possível a simbolização e o pensamento. Isso nos permite também lidar com sentimentos do passado, de ódio pelos nossos pais e culpa pela vingança realizada na fantasia, e nos permite reparar esses sentimentos, ressignificando-os.

 

Desenvolvimento psicossexual e saúde mental da criança adotada por família homoafetiva

Feita a descrição do desenvolvimento da criança e entendendo a dinâmica familiar, buscamos identificar e compreender se este desenvolvimento seria diferente no caso de uma criança adotada por uma família homoafetiva.
Em relação ao desenvolvimento da criança, nosso levantamento da teoria psicanalítica indicou que o desenvolvimento das instâncias psíquicas que determinam o funcionamento do sujeito não é influenciado pelo sexo dos cuidadores.

Para Roudinesco e Plon (1997), o Superego é herdeiro da função parental, na medida em que exerce as funções de juiz e censor sobre o Ego, responsável pela ética e moral. Para Freud (1923/1990), o Superego introjeta as escolhas objetais do Id, formulando a ideia de que deveria ser exatamente como figura paterna; porém, esta instância também se define justamente por não poder ser da mesma maneira que a figura paterna, pois entende que não é possível fazer tudo que o outro faz. Portanto, o desenvolvimento de tal estrutura se dá não só pelos modelos parentais, mas por como o sujeito passa pelo Complexo de Édipo, como foi estruturado seu Ego, e todo o seu contexto ambiental, incluindo escola, instituições religiosas, dentre outros.
Dentre os artigos pesquisados para a realização deste trabalho, também encontramos estudos e pesquisas que reiteram este entendimento. A respeito da dinâmica da família homoafetiva, Zambrano (2006) realizou um artigo com o objetivo de compreender a forma pela qual o modelo de família tradicional vem mudando para os dias atuais, se baseando na Psicologia, Psicanálise e Direito.

Os dados empíricos utilizados no artigo advêm do projeto “O Direito à Homoparentalidade”, realizado nos anos 2004 e 2005. Em seu trabalho, a autora buscou compreender como funciona a família ocidental contemporânea, as dinâmicas das famílias com pais/mães homossexuais, travestis ou transexuais, como ocorre a parentalidade e maternidade nestes casos, como são vivenciados os papéis de gênero e os desdobramentos no campo jurídico.

Após analisar os dados, a autora concluiu que a parentalidade não é sinônimo de parentesco, visto que há uma grande variação de papéis sociais parentais desempenhados em diferentes culturas ao longo da história (ZAMBRANO, 2006). Ela afirma que o fator que tem relação direta no desenvolvimento de uma criança adotada não é o fato do sexo de seus pais serem feminino ou masculino, mas sim a qualidade da relação estabelecida por eles, seja por casais heterossexuais ou homoafetivos. Um homem gay não pode ser considerado uma mulher, perante sua orientação sexual, assim como uma mulher lésbica não a torna um homem, perante sua orientação sexual. Partindo do princípio do termo “função parental”, tanto a função “materna” quanto a “paterna” pode ser representada por qualquer sexo, sem qualquer influência que o fato de desempenhar tal função mude seu gênero.

“O exercício das funções paterna e materna se dá de acordo com as características e preferências de cada um, não havendo necessariamente, nos casais homossexuais, uma divisão rígida de “papel de gênero”: feminino para que cumpre uma função dita materna e masculino para uma função dita paterna” (p. 24).

Complementado a ideia da família contemporânea, a autora Azenha (2011) realizou um levantamento teórico utilizando como base a psicanálise lacaniana e freudiana, a respeito das questões contemporânea da sociedade. A autora defende que a nova formação familiar, a partir dos direitos de união civil pelos homossexuais, como algo positivo para a sociedade, pois pode ser entendida como uma forma de ressaltar que o conjunto familiar não está ameaçado nos dias atuais, pois estão sendo constantemente formados novos modelos familiares na sociedade.
Maracajá (2011) ressalta que para o bom desenvolvimento da criança, não é relevante o sexo dos cuidadores, porém é importante que o casal homoafetivo consiga transmitir a diferença simbólica dos sexos para seus filhos.

“Embora os casais homoparentais, não encarnem a diferença sexual no real do seu corpo, precisam garantir, tão bem quanto os casais heterossexuais, a transmissão dessa diferença, que constitui a base para a transmissão simbólica. Isso quer dizer que o fato de o casal portar a mesma genitália, não impede a existência da função paterna e materna e nem tampouco que a criança possa extrair a diferença sexual.” (MARACAJÁ, 2011, p. 10).

O estudo realizado por Rosa, Melo, Boris e Santos (2016) é uma pesquisa descritiva e exploratória, que foi realizada através de um estudo de caso, sendo que teve como objetivo entender como ocorre a formação das funções parentais em casais homoafetivos, levando em consideração os âmbitos: psicológico, legais e sociais.

Para a realização, eles selecionaram um participante de cada sexo, sendo que os mesmos fazem parte de um casal homoafetivo que adotaram uma criança ou adolescente. Para obter informações sobre a formação do casal e o processo de adoção, foi elaborado uma entrevista semiestruturada.

A partir da análise das respostas obtidas, os autores compreenderam a partir das entrevistas que a construção das funções parentais “é resultado de um processo que se inicia na decisão/desejo de adotar, sendo apropriados pelo sujeito adotante a partir dos vínculos estabelecidos com o adotado” (ROSA, MELO, BORIS, SANTOS. 2016, p. 221), e concluem que o desenvolvimento saudável da criança independe da orientação sexual do casal, sendo que para este êxito é de suma importância que o casal apresente um vínculo afetivo saudável entre os cônjuges e entre eles e a criança adotada.

De acordo com Farias (2007), a função masculina é associada à imposição de regras e questões mais objetivas, enquanto a feminina se ocupa dos cuidados com a criança e o lar. Para a psicanálise, é esta função paterna que atua na separação psíquica entre mãe e filho, no entanto ela pode ser exercida independentemente do sexo do cuidador. Para Zambrano (2006), tanto nos casais gays ou lésbicos, o parceiro, por ser objeto do desejo do pai/mãe, passa a atuar na fusão da relação inicial mãe-filho, demonstrando a existência de um “outro” que é desejado, dando início a alteridade. “Para o filho, não importa o sexo da pessoa para a qual o desejo do pai/mãe está direcionado. O importante é a descoberta da existência de uma outra pessoa, que não ele/ela, por quem o pai/mãe sente desejo” (ZAMBRANO, 2006. p. 136). Laia (2008) aponta que nenhum indivíduo nasce com as características necessárias para ser pai ou mãe, ou seja, a paternidade e maternidade não são qualidades internas inerentes ao sujeito. O autor define que os seres humanos passam por uma espécie de adoção simbólica:

“É a partir de um processo de “adoção simbólica” que os seres humanos são “batizados” como “pai”, “mãe” e “filho(a)”, e, ao se reconhecerem assim (mesmo quando atravessado por “conflitos familiares”) eles se tornam no dia a dia de suas existências, efetivamente “pai”, “mãe” e “filho” (p. 31).

Existem muitos estudos que buscam reunir e avaliar o que já se sabe a respeito da parentalidade homoafetiva. Patterson (2005) realizou em 1997 um levantamento com mais de 200 estudos sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes criados por pessoas homoafetivas.

A pesquisa foi atualizada em 2005 e inclui estudos de base psicanalítica e outras abordagens e também dados sobre crianças adotadas, além de outros casos (como filhos naturais). Apesar de não apresentar o recorte específico que propomos neste trabalho, foi possível encontrar alguns pontos relevantes que podem ser apresentados. No geral, a autora constatou que não há diferenças entre crianças criadas por casais homoafetivos e por famílias tradicionais no que envolve desenvolvimento pessoal, identidade sexual, relações sociais e risco de abuso sexual.

De acordo com a autora, estudos projetivos realizados com crianças entre 5 e 14 anos, seguidos de entrevista, indicaram que o desenvolvimento de identidade de gênero das crianças com mães lésbicas segue o padrão esperado, sendo que não houve evidência de dificuldades de identidade de gênero em nenhum dos estudos realizados. No entanto, a pesquisa da autora não apresenta dados a respeito de crianças com pais gays.

Em relação a estudos de identidade de gênero no geral (sem utilizar necessariamente técnicas projetivas), a grande maioria indica que não há taxas elevadas de homossexualidade entre as crianças de pais homoafetivos. Segundo o levantamento de Patterson (2005), as pesquisas consultadas indicam que crianças de pais homoafetivos mantém relacionamentos positivos com colegas da mesma idade e com adultos de ambos os sexos.

Na pesquisa realizada também não há evidência que sugere que pessoas homoafetivas não possuem as habilidades necessárias para serem cuidadores de uma criança ou que há comprometimento no desenvolvimento psicossocial de crianças criadas por casais homoafetivos.
Outro levantamento sobre as pesquisas científicas sobre o tema foi realizado por Farias (2007). De acordo com os dados relacionados pela autora, o desenvolvimento psicossexual de filhos de pais e mães homossexuais aparenta ocorrer da mesma maneira que o desenvolvimento de filhos de pais e mães heterossexuais. Segundo Farias (2007), é importante que a criança tenha acesso às funções masculina e feminina durante seu desenvolvimento. Porém elas não são necessariamente exercidas de acordo com o sexo biológico dos cuidadores. 

Zambrano (2006) também fala sobre as funções parentais de maneira semelhante em seu trabalho, no qual afirma que “se pensarmos em termos de “função parental”, podemos dizer que a função “materna” ou “paterna” poderá ser desempenhada por qualquer dos parceiros, mesmo quando exercida de forma mais marcante por um ou outro dos membros do casal, sem que isso os transforme em mulher ou homem” (ZAMBRANO, 2006, p.135).

Cecílio, Scorsolini-Comin e Santos (2013) também realizaram uma pesquisa sobre o tema, buscando compreender a adoção por casais homoafetivos. Para isso realizaram uma revisão da literatura, para obter conhecimento profundo a respeito do tema. Após pesquisa nas bases Lilacs, Pepsic, Scielo e Portal Nacional BVS Brasil em Saúde, foram selecionados dez artigos do período de 2000 a 2010. Perante o levantamento realizado pelos autores, foi possível concluir que a adoção por casais homoparentais ainda é vista com muito preconceito.

Os autores afirmaram que existem poucos estudos científicos sobre o tema, e este tipo de pesquisa tem como objetivo trazer reflexões à respeito da função parental por casais homoafetivos e trazer o entendimento das novas constituições de família. De acordo com os pesquisadores, os primeiros estudos sobre o tema da adoção por pessoas do mesmo sexo focavam em compreender quais poderiam ser as consequências na criação e desenvolvimento dos filhos.

Ainda hoje há uma crença de que a criança poderia sofrer prejuízos em seu desenvolvimento no que diz respeito aos processos de identificação e formação da identidade, pois não haveria referências paterna ou materna. Porém, a pesquisa apontou que os estudos analisados indicam que não há comprovação de que a orientação homossexual dos pais poderia ser transmitida aos filhos.

A pesquisa realizada por Ferreira e Chalhub (2010) corrobora com esta ideia, eles realizaram uma revisão bibliográfica com o intuito investigar as produções cientificas da psicologia sobre o tema adoção de crianças por casais homoafetivos e as consequências do preconceito e dos mitos que cercam essa nova possibilidade de adoção, sendo que essa pesquisa é uma revisão de conteúdos cientificas produzidas de 1990 a 2009. A partir do levantamento, os autores concluíram que as capacidades de criar uma criança indeferem da orientação sexual dos pais, eles afirmam que os estudos científicos mostram que “a orientação sexual em nada influência a qualidade da parentalidade”, sendo assim, a parentalidade homoafetiva não apresenta um prejuízo no desenvolvimento saudável da criança.
Dias (2010) também chegou à mesma conclusão em seus estudos, afirmando que não ocorre qualquer tipo de desvio no desenvolvimento ou aparecimento de qualquer distúrbio ao decorrer da vida destas crianças. A autora complementa que a “igualmente nada comprova que a falta do modelo heterossexual acarreta perda de referências a tornar confusa a identidade de gênero” (DIAS, 2010, p. 01).
Outro estudo que pode nos ajudar a compreender o desenvolvimento da criança adotada por casais homoafetivos é a pesquisa realizada por Uziel (2002). Semelhante a Farias (2007), Uziel buscou entender o processo de adoção dos casais homoafetivos. Após levantamento bibliográfico sobre o conceito de família e suas novas configurações e as relações sobre o tema no campo jurídico e legislativo, a autora analisou entrevistas realizadas com profissionais que participam do processo de adoção, e em seguida fez uma análise do processo burocrático da adoção quando os solicitantes são um casal homoafetivo.

Ela concluiu que a partir dos conhecimentos adquiridos, não há comprovação científica de crianças criadas por casais homoafetivos sofram algum prejuízo em seu desenvolvimento. Ela também afirma que a existência de pais de sexos diferentes não garante uma subjetividade saudável, porque as funções que são necessárias para o desenvolvimento saudável de um indivíduo são simbólicas, ou seja, não há necessidade de um corpo anatômico para que elas sejam exercidas.

A autora também afirma que a criança criada por casais homoafetivos poderá adquirir um referencial de sexo assim como crianças criadas por casais heterossexuais, pois está inserida em uma sociedade, na qual poderá experienciar e conviver com várias pessoas e formar relações (UZIEL, 2002).
Vieira (2011) estudou o exercício da homoparentalidade, como foco nas funções materna e paterna, a partir de entrevistas com casais homoafetivos que possuem filhos. De acordo com o autor, o mais importante para a saúde mental e constituição psíquica da criança e o relacionamento e as trocas que ocorrem entre ela e seus cuidadores.

Para Cecilio et al (2013), as dificuldades burocráticas para que estas famílias sejam reconhecidas e a discriminação e preconceito acabam influenciando na maneira como eles se estruturam e criam sua identidade.
Segundo um estudo realizado por Rodriguez e Paiva (2009), um dos fatores que afeta o exercício da parentalidade nas famílias homossexuais não envolve a orientação sexual dos cuidadores, mas a ausência do apoio da família, comunidade ou sociedade como um todo, que ainda demonstra preconceito com estas famílias.

As autoras realizaram uma pesquisa com dois casais homoafetivos responsáveis por crianças há pelo menos um ano, sendo que os responsáveis tinham idade entre 25 e 40 anos. Um dos casais era constituído por duas mulheres responsáveis por duas crianças, sendo que cada uma era filha de cada um dos cônjuges. O segundo casal era constituído por dois homens responsáveis por uma criança, filha de um dos cônjuges.

As autoras realizaram entrevistas semiabertas e o teste projetivo Desenho de Família Com História, sendo que esses procedimentos foram realizados na residência de cada uma das famílias. A partir desses procedimentos as autoras concluíram que o que mais afeta as famílias homoparentais é a forma que elas exercem essa parentalidade e o preconceito da sociedade e das próprias famílias destes casais. “Notou-se que as famílias homoparentais possuem suas especificidades, mas, de maneira geral, passam por dificuldades e conflitos, como também outras configurações familiares podem passar” (RODRIGUEZ, PAIVA, 2009, p. 25). “Esses indivíduos acabam vivendo como estrangeiros dentro de suas próprias famílias, que levam longo tempo até aceitá-los novamente, e ainda assim com reservas” (RODRIGUEZ; PAIVA, 2009, p. 24).

Elas afirmam que como todas as famílias, as homoparentais também passam por suas dificuldades e seus problemas, mas diferente das outras, estas famílias não possuem uma rede social de apoio, portanto o preconceito afeta o desempenho saudável da parentalidade (RODRIGUEZ; PAIVA, 2009).

Vieira (2011) também aponta que um fator prejudicial à saúde mental da criança filha de casais homoafetivos é o preconceito. “A discriminação dessas crianças, se não causa danos psíquicos (não temos constatações empíricas), certamente produz muito sofrimento, o que é inadmissível em uma sociedade libertária que, a rigor, deveria potencializar uma expressão mais livre da sexualidade e dos afetos” (VIEIRA, 2011, p. 195).
A Zambrano (2006) reforça esta informação, indicando que estudos recentes demonstram que a orientação sexual dos pais não é um indicativo de boa parentalidade, sendo que os fatores que influenciam nesta função seriam a capacidade de cuidar e a qualidade do relacionamento com os filhos.

Maracajá (2011) também ressalta que é importante que a adoção seja fruto de um real desejo de ter uma criança e adotar. A adoção não pode se sustentar como um mero ato de caridade, assistencialismo e nem como uma maneira de legitimar a constituição desta família para a sociedade.

É fundamental que o casal tenha um desejo e anseie por cuidar e criar uma criança, ou seja, deve ter uma disponibilidade psíquica. A autora propõe que é importante que os estudos da Psicologia reflitam sobre o papel da criança em si na sociedade atual, que vem se tornando um objeto de desejo para atingir um objetivo, porém muitas vezes não é de fato desejada.

“O Direito das Famílias deve estar atento a esse status da criança nos novos laços familiares. A grande ameaça à integridade da criança não está na genitália daqueles que encarnam para ela as funções materna e paterna, mas no Desejo, ou melhor, na ausência dele.” (MARACAJÁ, 2011, p. 13)

Vieira (2011) também defende esta ideia em sua pesquisa, na qual afirma que o principal requisito para a adoção homoafetiva é o aspecto psíquico dos cuidadores. Rodrigues e Paiva (2009) também apontam que o contexto familiar sadio é constituído por relações e vínculos entre seus membros e sua saúde psíquica, sem necessariamente estar vinculado a uma estrutura familiar específica.

Considerações

A partir deste estudo bibliográfico buscamos compreender como se dá o desenvolvimento de crianças que são adotadas por casais homoafetivos. Com a pesquisa da história da família em nossa sociedade foi possível compreender que este conceito é formado social e culturalmente, e teve sua dinâmica e estrutura modificadas ao longo do tempo.

Este levantamento foi importante para compreendermos a possibilidade da família homoafetiva na atualidade, visto que não há um determinante rigidamente estabelecido para indicar o que forma ou não uma família. Portanto, é possível compreender que a dinâmica familiar sendo ela, homoafetiva ou heteroafetiva, tem influência direta no desenvolvimento e saúde mental da criança.
A partir do capítulo que trata sobre a adoção no Brasil foi possível tomar conhecimento dos trâmites legais que envolvem o processo de adoção e da realidade brasileira, que hoje registra um grande número de famílias na lista de espera, fila que aumenta cada vez mais devido aos pré-requisitos impostos pelas próprias famílias às crianças desejadas.

Também foi possível identificar, a partir de poucos dados encontrados sobre o tema, que aparentemente os casais homoafetivos costumam impor menos requisitos à criança. Pareceu-nos interessante relacionar essa informação com a constatação de alguns dos artigos consultados: um dos fatores fundamentais para o bom desenvolvimento e saúde mental da criança adotada é que ela seja fruto de um desejo do casal proponente em ter um filho. Sendo assim, podemos entender que os casais homoafetivos que adotam crianças aparentam apresentar um desejo genuíno pela constituição de uma família, e não buscam a adoção como uma maneira de legitimar seu status na sociedade.
De acordo com os materiais consultados, entende-se que, de uma forma geral, não há comprometimento no desenvolvimento e saúde mental de crianças adotadas por casais homoafetivos, já que os mesmos podem exercer as mesmas funções parentais que os casais heterossexuais, independentemente do sexo.

A teoria psicanalítica embasou a compreensão sobre o tema, e ao ser relacionada com artigos científicos da atualidade, indicou que não há comprometimento no desenvolvimento e saúde mental da criança.
A teoria psicanalítica inicialmente não aborda a questão da parentalidade homoafetiva especificamente, porém indica a importância das funções parentais no desenvolvimento da criança, exercidas independentemente do sexo dos cuidadores. É importante que os cuidadores façam essa diferenciação de papéis com seus filhos, pois isto refletirá no desenvolvimento da criança; porém os artigos consultados indicam que essa dinâmica ocorre tanto por parte dos pais quanto por parte da sociedade e cultura, na qual as crianças estão inseridas.

Outro importante ponto que foi encontrado nos artigos a ser destacado é que o preconceito e falta de conhecimento a respeito dos casais homoafetivos e seu relacionamento é um fator que pode influenciar negativamente a saúde mental da criança adotada por estas famílias, visto que todos seus membros sofrem com estas questões em diversos âmbitos de sua vida em sociedade.
A homossexualidade é um tema amplamente discutido, e ainda é cercado de muitos tabus e crenças sem base científica. É de grande importância que haja mais estudos empíricos sobre o tema, tanto quantitativos quanto qualitativos, além de estudos longitudinais para que seja possível coletar mais dados a respeito de como a criança passa pelos estágios de desenvolvimento psicossexual propostos pela psicanálise, para que possamos ter uma maior compreensão sobre o exercício da parentalidade por casais homoafetivos.

Estes estudos são importantes não apenas para que se amplie o conhecimento científico da Psicologia, mas principalmente para que seja possível compreender se, de fato como os artigos consultados propõem, a maior dificuldade apresentada na criação, no desenvolvimento e na saúde mental de crianças adotadas por casais homoafetivos não é oriunda do sexo ou orientação sexual dos cuidadores, mas de questões culturais da sociedade, envolvendo preconceito, burocracias e exclusão ou dificuldade de aceitação destas famílias nas estruturas que formam nossa sociedade, como escolas, trabalho, espaços de saúde e culturais.
Os estudos podem ajudar crianças, pais e também profissionais da área de Psicologia, Direito e Assistência Social, já que foi constatado que muitos profissionais que atuam no processo de adoção relatam sentir dificuldades sobre como lidar em casos de adoção de casais homoafetivos. Sendo assim é necessário que os órgãos que ministram o processo de adoção sejam isentos de estigmas e pré-conceitos, que atuem com base nos conhecimentos científicos produzidos. Este conhecimento também é importante nas escolas, primeiro espaço de socialização das crianças, para que lidem de maneira adequada com estas famílias.
No que diz respeito ao processo de adoção em si, concluímos que a participação do profissional da Psicologia deve ir além da mera avaliação da família proponente. É de suma importância que exista um acompanhamento psicológico com as crianças enquanto esperam por uma nova família para auxiliar no desenvolvimento saudável e facilitar a adaptação da mesma em sua nova família. Também é importante um acompanhamento psicológico com as famílias na espera pela adoção, para ajudá-los a compreender suas motivações e se preparar para esta grande mudança em sua dinâmica.

Além disso, o profissional pode auxiliar durante o processo de adoção, no período de adaptação, com o objetivo de auxiliar no estabelecimento de vínculos e nas funções parentais, podendo atuar inclusive após este processo, ajudando a família a entender sua nova dinâmica e se adaptar à sua nova configuração, responsabilidades e deveres.

Entendemos que este acompanhamento ajudaria a prevenir eventuais dificuldades que podem ocorrer na relação entre os responsáveis e a criança adotada, para prevenir e promover o desenvolvimento saudável da criança.

Concluímos que a atuação do psicólogo também é importante em outros espaços da sociedade além do Judiciário, como nas escolas e espaços de saúde, para auxiliar na inclusão destas famílias na sociedade, desmistificando algumas lógicas do senso comum e transmitindo conhecimento científico sobre o tema, contribuindo para a promoção de saúde.

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Acesso em: 16 de setembro de 2017.

ZIMERMAN, D. E., Manual de Técnica Psicanalítica, Porto Alegre: Editora Artmed, 2004.

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Psicoterapia breve

* Este texto trata apenas da Psicoterapia Breve de base psicanalítica

Qual seria a diferença entre psicanálise, psicoterapia, psicoterapia breve, plantão psicológico e aconselhamento psicológico?

A psicanálise, como o nome indica, se refere a um processo de análise, não tem necessariamente uma queixa. Pode ser iniciada como uma busca por auto-conhecimento. Já a psicoterapia tem algo a ser tratado, ou seja, se inicia por conta de uma queixa, um sintoma manifesto. A psicoterapia breve é um tratamento com foco específico, tempo determinado e um objetivo a ser trabalhado. Por fim, o plantão psicológico é uma intervenção rápida em casos de urgência ou emergência, oferecendo um primeiro acolhimento para que a pessoa possa se organizar a fim de procurar por um atendimento adequado e os próximos passos. Por fim, o aconselhamento psicológico é uma técnica utilizada para ajudar a pessoa a tomar decisões.

Histórico

A Psicoterapia Breve (PB) surgiu com o aumento da demanda da população por tratamentos psicológicos aliado às condições financeiras, já que a psicoterapia “clássica” costuma ser cara, pode exigir mais de uma sessão por semana, e tem duração longa. O interesse nessa abordagem cresceu por volta de 1960, quando a área de saúde mental passava por um grande desenvolvimento.

Ela tem sua origem na Psicanálise, com Ferenczi. Porém as variações da PB surgiram ao mesmo tempo que em a Psicanálise ainda estava se estabelecendo, portanto de início ela não teve grande aceitação na comunidade científica. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, aumenta a demanda da população por tratamentos envolvendo a saúde mental, o que estimula novos estudos na área da PB. Balint então recupera os trabalhos de Ferenczi e inicia novos estudos na área.

Características

As principais características da PB são seu prazo definido, seus objetivos limitados e seu foco em uma questão específica. Não há um prazo definido, porém costuma-se determinar sua duração para no máximo um ano. As consultas costumam ser realizadas apenas uma vez por semana. É importante ressaltar que a PB é breve por design, não por conta das circunstâncias – ou seja, ela é breve desde o começo, planejada e trabalhada neste sentido; não pode ser considerada uma PB um processo terapêutico que se encerra mais cedo porque o convênio concedeu apenas um número baixo de sessões, ou porque o paciente resolveu que já havia resolvido o problema. A PB tem começo, meio e fim, com um objetivo e foco bem delimitados.

No início o terapeuta deve avaliar o grau de interesse e disponibilidade do paciente, sua motivação (quer apenas aliviar os sintomas ou sabe como funciona um trabalho terapêutico?), seu entendimento sobre a natureza psicológica de seus problemas, quais são suas expectativas em relação aos resultados (o paciente não espera nada? ou espera um milagre? quanto mais realista for sua expectativa, menores serão suas defesas), e verificar se o paciente tem uma atitude ativa, se entende seu papel na PB e o esforço interno que ela irá exigir. Além disso, é preciso verificar se é possível escolher uma área para se concentrar, qual será o foco da PB.

Para que seja possível alcançar os objetivos dentro deste curto prazo, é preciso considerar os conceitos básicos da PB: Experiência emocional corretiva, aliança terapêutica, foco e planejamento.

  • Experiência emocional corretiva
    Por meio da transferência, o paciente pode reviver uma situação, e a postura do terapeuta faz com que o paciente experimente uma nova visão dessa questão, como se reescrevesse essa experiência emocional.  Ou seja, o paciente experimenta velhos problemas com uma possibilidade de novo final.
  • Aliança terapêutica
    O terapeuta está um pouco mais presente na PB, a abstinência não é tão rígida quanto na psicoterapia convencional. A boa aliança facilita a colaboração, principalmente nas situações de resistência. Ela é estabelecida através do acolhimento, empatia, sigilo. O paciente se permite obter ajuda conforme sente que pode confiar no terapeuta, e então abaixa sua resistência.
  • Foco
    É preciso se manter atento à questão que se pretende trabalhar, ou seja, o conflito psicodinâmico relacionado à queixa. Ele não é a mesma coisa que a queixa. O conflito psicodinâmico vai ser revelado nas entrevistas e avaliações. Estabelecer o foco faz parte do contrato, e quanto melhor definido, maiores as chances de sucesso.
  • Atividade e planejamento
    O terapeuta deve refletir sobre que tipo de atividade irá realizar para manejar a transferência. Ele não pode ser passivo, mas também não deve ser direito, mas sim atento ao foco, confrontando resistências e mecanismos de defesa gentilmente, promovendo uma chamda tensão terapêutica. O terapeuta deve falar o que precisa ser dito sem julgamento ou acusações, e se manter atento às reações do paciente para que ele continue ativo.

 

Outros pontos característicos da PB é a Interpretação da transferência: é preciso ultrapassar as defesas e ansiedades para chegar até o sentimento que está encoberto. A interpretação deve ser usada para escavar informações, relacionar questões do presente com o passado. Porém o terapeuta deve ter uma atenção seletiva, pois durante as sessões podem surgir diversas questões não resolvidas que não estão relacionadas ao foco que foi determinado para a PB. Além disso, quando temos menos interpretações, temos também menos resistências, o que ajuda o trabalho terapêutico. As resistências devem ser interpretadas o mais rápido e sempre que possível, para que isso não atrapalhe a aliança terapêutica.

Uma data de término definida também pode ajudar o paciente a manter o foco. Com a proximidade do término, é preciso avaliar se o paciente alterou seu comportamento, se parece ter chegado à solução de seus problemas, demonstra independência e melhor autoestima.

Nesta fase também existe a possibilidade de o paciente vivenciar uma experiência emocional corretiva, e por isso o fim da terapia deve ser trabalhado a partir das [ultimas quatro sessões. Na última, é interessante que o paciente faça um resumo do que foi trabalhado e quais são suas expectativas, o que sentiu, suas conclusões, etc.

Psicodinâmica

A PB privilegia a experiência atual de realidade do paciente, buscando compreender seu cotidiano fora do tratamento. Existem fatores que atuam no paciente além da neurose infantil, além do complexo de Édipo. Em sua vida, o sujeito passa por diversas situações e traz para a PB conflitos mais atualizados. Portanto a PB busca uma compreensão social do paciente que complementa a compreensão psicodinâmica, ou seja, busca entender o mundo externo e o interno.

A doença é caracterizada por uma conjunção de fatores em diferentes níveis, tanto internos quanto externos, que se encaixam e se potencializam. Portanto é preciso que o terapeuta busque entender este conceito para que possa planejar sua atuação. O desequilíbrio ou o desajuste surge quando um fator externo se choca com os mecanismos do indivíduo, ou seja, o que ocorre no ambiente se depara com uma predisposição da personalidade do sujeito, o que leva ao desequilíbrio.

Para compreender a psicodinâmica da doença é preciso considerar sua interação com o funcionamento normal do sujeito. Mesmo quando está doente, a pessoa não é doente por inteiro – existem núcleos sadios no ego, ela não está adoecida o tempo todo. Logo, a PB busca organizar os recursos do paciente de forma maleável, avaliando sua situação como um todo, seu grau de enfermidade e seu potencial de adaptação. A PB então trabalha com as áreas do ego livres de conflito, considerando quais capacidades estão contagiadas por conflitos e quais estão livres. No entanto é importante ressaltar que o terapeuta deve fazer isso buscando minimizar ou manejar a transferência negativa, pois devido a sua curta duração, não há tempo para trabalhar estes aspectos trazidos pelo paciente.

Modelos motivacionais

A PB busca entender as motivações do sujeito para traçar planos, buscar descobrir o que motivaria o paciente a buscar alternativas, planejar seu futuro, ou ter outra visão de si.

As motivações no sujeito são tanto primárias (infantis) e secundárias (adulto), e se relacionam, não sendo unicamente uma nem outra.

Assim, a PB se organiza para usar os recursos motivacionais, considerando as especificidades de cada sujeito e suas motivações primárias e secundárias. Conforme esclarece aspectos básicos da situação, a PB pode fortalecer a capacidade egóica do sujeito, aumentando sua capacidade de adaptação e fortalecendo seus aspectos saudáveis.

Podemos entender então que a flexibilidade na escolha da técnica é um aspecto específico da PB, na medida em que o terapeuta deve avaliar qual é a melhor opção para tratar de um indivíduo complexo, multideterminado, e com alternâncias funcionais, entendendo sua história e vida.

 

Referências

FIORINI, H. J., Teoria e técnica de psicoterapias, 2008.
GEBARA, A.G, Como interpretar na psicoterapia breve psicodinâmica, Editora
Vetor, 2003.

SEGRE, C.D., Psicoterapia breve, 1997.

YOSHIDA, E. M. P, Psicoterapias psicodinâmicas breves 
e critérios psicodiagnósticos, 1990.

 

Interpretação em psicanálise

A interpretação tem relação com o conteúdo que pertence ao paciente, mas que ele não tem conhecimento. Ela é diferente da opinião do terapeuta. Ela deve ser veraz, desinteressada e pertinente. Veraz, pois deve ser objetiva, certa. Deve ser desinteressada, pois se o terapeuta tem outros interesses, não é uma interpretação, mas uma sugestão ou manipulação. E pertinente, pois deve se dar no momento adequado, num contexto em que será útil para o paciente e o processo terapêutico. (Timing: momento exato em que a interpretação faz sentido para o paciente, e pode levar ao insight.).

A interpretação é uma nova conexão com o significado. O analista toma o conteúdo da associação livre do paciente e produz uma síntese que dá um significado diferente à sua experiência. A interpretação pode ser justificada ou refutada pelo paciente. Ela dá a oportunidade de organizar uma nova maneira de pensamento, e muda o ponto de vista, ou seja, promove uma mudança no sujeito.

Seus parâmetros são: informação, significação e operatividade. Nesta técnica, pode-se usar perguntas e confrontações para preparar o paciente para a interpretação.

  • interpretação transferencial: interpreta como o paciente se relaciona com outros.
  • interpretação histórica: recupera uma situação passada. O valor do passado é sublinhado e reconstruído, podendo ganhar um novo significado.
  • interpretação atual: interpreta um conflito específico que não tem relação com um conflito estruturante.
  • interpretação extratransferencial: interpreta algo que ocorre fora da transferência. Uma situação faz com que o paciente tenha um novo jeito de lidar com o analista, porém que não interfere na transferência.

 

Referências

ZIMERMAN, D.E., Manual de técnica psicanalítica, 2004

Insight

A interpretação tem como objetivo ajudar o paciente a chegar ao insight. O insight é um flash repentino que ajuda o paciente a entender algo sobre si mesmo que ele não havia percebido. Pode ocorrer também de maneira lenta, e exige um trabalho interno muito grande.

  • insight intelectivo: o paciente consegue compreender o que o terapeuta diz e relacionar este conteúdo a seu funcionamento psíquico.
  • insight cognitivo: o paciente começa a tomar conhecimento de comportamentos e características que fazem parte de seu funcionamento. Pode gerar angústia, “como posso mudar?” ou “como não percebi isso antes?”.
  • insight afetivo: o pensamento que já tem clareza racional começa a se encher de lembranças e emoções, evocando sentimentos atuais e do passado. O paciente começa a entrar em contato com a origem do conflito.
  • insight reflexivo: o paciente fica imerso no conteúdo, e começa a ter conclusões reflexivas sobre o insight.
  • insight pragmático: conforme elabora o insight, o paciente vai mudando seu modo de pensar e agir, assumindo responsabilidade por seus atos. Conforme vai tendo maior clareza sobre si, pode funcionar de maneira diferente.

Na elaboração, a mente do paciente trabalha para integrar estes sucessivos insights que ocorrem na análise. Isso geralmente desperta uma dor psíquica, um sofrimento que o paciente sente ao fazer mudanças. O paciente passa a entender que a maneira como os outros o veem e como ele funciona são diferentes. Após a elaboração, o paciente passa a ter um sentimento de autenticidade e coerência, na medida em que interno e externo se aproximam.

 

Referências

ZIMERMAN, D.E., Manual de técnica psicanalítica, 2004

Atenção Flutuante

É o equivalente à regra fundamental do paciente, porém se dá para o terapeuta. É preciso prestar atenção em nada para prestar atenção em tudo, e assim se estabelecer a comunicação consciente e inconsciente. O terapeuta deve esvaziar-se de si para compreender o que o paciente transmite.

Para isso é preciso que o terapeuta se livre de seus desejos e memórias, e até dos conhecimentos teóricos. A técnica deve ser dominada a ponto de o terapeuta não precisar pensar para colocá-la em prática. Não é que o terapeuta não possa se lembrar ou sentir algo (até porque isso seria impossível), porém é preciso que ele esteja seguro de que sua mente não estará saturada por esses sentimentos e lembranças.  Tudo isso para que ele seja capaz de discriminar o que é um sentimento próprio de um sentimento que se dá na situação analítica.

 

Referências

ZIMERMAN, D.E., Manual de técnica psicanalítica, 2004

Resistência, transferência e contratransferência

resistência é entendida como uma força que age contra impulsos inaceitáveis de ordem sexual, e surge distorcido na consciência. Ela está constantemente presente na análise. A resistência é resultado de forças que agem contra o terapeuta e o processo terapêutico. Isso pode aparecer como uma dificuldade em lembrar de algo, de associar, elaborar ou no desejo de mudar. Outros comportamentos que podem evidenciá-la (mas não necessariamente) envolvem o exagero de silêncio, as faltas, a prolixidade, os atrasos, segredos, sonolências e intelectualizações. É um mecanismo do ego de barrar o que vem do id.

Existem diferentes tipos de resistência:

  • Resistência de repressão: é a repressão que o ego faz das percepções que causam sofrimento. Age contra lembranças penosas que podem voltar à consciência.
  • Resistência de transferência: é a resistência contra uma possível transferência negativa ou sexual. O paciente percebe que pode haver uma transferência negativa, e então foge disso para não destruir sua relação ou o setting.
  • Resistência de ganho secundário: ocorre quando o paciente resiste à melhora pois se beneficia do sofrimento. É uma força contrária ao desejo de melhora.

transferência está presente em todas as relações, e é o conjunto de todas as formas pelas quais o paciente vive com o terapeuta suas fantasias, questões emocionais. É o que permite ao analista fazer interpretações, pois se relaciona com os objetos internos e visões de mundo.

  • Neurose de transferência: o paciente vive uma forte carga emocional investida no terapeuta, que sai para fora da sessão e ocupa grande parte do tempo e espaço mental do paciente. O terapeuta povoa a cabeça do paciente, como num estado de enamoramento. Porém, o momento da transferência é apenas no setting.
  • Transferência psicótica: o paciente tem uma transferência prematura, logo no início da sessão, que se agarra ao analista de forma muito forte (pertinaz) e na primeira decepção, ele já abandona a análise ou distancia do vínculo (perecível). Se assemelha ao funcionamento de uma criança frágil.
  • Psicose de transferência: neste caso o paciente não é psicótico, mas ingressa em um estado transferencial tão agressivo e negativo, distorcendo os fatos reais em relação ao analista, que parece se tratar de um psicótico. O setting faz com que o paciente regrida, e isso só ocorre na situação analítica.

Freud dividiu as transferências como sendo positivas (resultantes da pulsão de vida – Eros) e negativas (resultantes da pulsão de morte – Thanatos).

transferência positiva envolve sentimentos amistosos, carinhos, de amizade, desejos eróticos sublimados como amor não sexual. O paciente revive com o terapeuta a experiência amorosa, transferindo sentimentos de amor. No entanto, ela pode aparentar resultar de uma pulsão de vida, porém ser negativa, pois representa uma idealização profunda. Na idealização, a experiência com o objeto mal é tão intensa, que o paciente não consegue se aproximar dele, e usa a idealização como mecanismo de defesa.  Pode tratar-se também de uma recíproca fascinação narcísica, na qual o terapeuta se acha tão bom, que não vê a idealização. Também pode se tratar de uma pseudocolaboração, na qual o paciente aparenta estar colaborando e tenta mostrar que melhorou, porém não está transferindo positivamente.

Transferência idealizadora: ocorre em casos de pacientes muito regredidos, que tentam viver um vínculo primário, quase uma relação simbiótica com o terapeuta. O paciente idealiza o terapeuta, que deve desfazer essa idealização frustrando o paciente.

Já as transferências negativas têm um princípio agressivo, como inveja, ciúme ou rivalidade. A agressividade faz parte do ser humano, e cedo ou tarde ela aparece e deve ser trabalhada na terapia. Ela pode ser um sinal de que o paciente está desenvolvendo uma relação de confiança em si mesmo, com o analista e o vínculo.

  • Transferência especular: se dá em pacientes com fixações em etapas primitivas, com carência nas relações mais básicas. O paciente busca na relação terapêutica alguém para suprir essa falta. Pode aparecer como uma tentativa de fusão, e não quer ser frustrado pelo terapeuta.
  • Transferência erótica: necessidade de ser amado, compreendido e aceito. Reconhece que o terapeuta dá amor e acolhimento e confunde com a necessidade de contato físico. Deriva da pulsão de vida.
  • Transferência erotizada: deriva da pulsão de morte. Envolve fantasias agressivas de controle e poder sobre o terapeuta, e pode aparecer sob a forma de necessidade sexual e amorosa.
  • Transferência perversa: o paciente tenta perverter o setting para modificar as regras.

A transferência não é criada pelo setting, mas o setting facilita o surgimento da transferência, permitindo que o paciente viva regressões, inclusive. Ela é um diálogo no interior do psiquismo, e permite identificar como o paciente funciona internamente. Por isso, é preciso tomar cuidado com o que se transmite, pois qualquer coisa da pessoa real do terapeuta pode influenciar na transferência.

As contratransferências são um fenômeno que pode ocorrer junto à transferência. São os sentimentos inconscientes do paciente que influenciam nos sentimentos inconscientes do terapeuta. Ela ocorre quando o analista é mobilizado a dar uma resposta emocional.

A contratransferência nem sempre é prejudicial, e com técnica pode ser usada como um instrumento para que o paciente tenha experiências fortes. A contratransferência é a reação do analista ao paciente. É importante diferencia-la de transferência do analista, na qual o analista transfere um conflito pessoal para o paciente.

O analista deve estar atento para entender que nem tudo que ocorre na sessão é transferência do paciente; ele deve entender que muitas vezes o que ocorre tem a ver com seus próprios sentimentos (no caso, a contratransferência).

  • Contratransferência erotizada: decorre de uma necessidade de controle e poder sobre o paciente. Pode ser confundida como algo sexual.
  • Contratransferência somatizada: decorre de uma resposta corporal ao que o paciente transfere (sentir sono, por exemplo).

A contratransferência pode ser usada na terapia na medida em que o analista entende como se sente e usa isso para analisar e interpretar. Por exemplo, se o analista sempre sente sono com o mesmo paciente, pode ser que este sujeito se mostre desinteressante. Quando a contratransferência é percebida, ela pode ser um meio não verbal de se comunicar com o paciente, ajudando o analista a compreendê-lo.

 

Referências

ZIMERMAN, D.E., Manual de técnica psicanalítica, 2004

Setting/Enquadre em psicanálise

O setting é o espaço criado especialmente para que esta relação aconteça. É um ambiente especial que permite que o paciente viva experiências raras, únicas e singulares, e reviva experiências velhas que podem ser ressignificadas, o que leva ao amadurecimento. O setting é formado a partir do cumprimento das regras do contrato. Ele é a soma dos procedimentos que formam o processo psicanalítico. É no setting que a transferência se estabelece. De certa maneira, o setting funciona como um novo modelo parental, sendo acolhedor porém dando regras. Ele oferece firmeza e acolhimento, porém deve frustrar o paciente quando necessário.

Zimerman define uma série de funções terapêuticas do setting. Ao ser instituído, ele deve ser preservado ao máximo, porém sem rigidez, pois a rigidez leva à surdez das necessidades do paciente. Um terapeuta bonzinho não é necessariamente bom, pois uma das funções do setting é a de frustrar o paciente, oferecendo continência.

Uma das vantagens de manter o setting é que ele estabelece um aporte da realidade exterior, permitindo ao paciente lidar com a frustração e privação da vida. Ele também promove a delimitação entre o “eu” e o outro, na medida em que permite a obtenção de capacidades adultas de diferenciação e separação. Sendo assim, ele ajuda a definir a noção de limite, que é marcada pela onipotência e onisciência de qualquer paciente.

O setting ajuda neste limite, desfazendo fantasias de simetria e similaridade. Nele o paciente deve enfrentar suas dificuldades, sendo frustrado para perder a sensação de onipotência. Já o terapeuta deve dar continência a essa frustração, entendendo que somente pelas frustrações do setting o paciente será capaz de simbolizar.

Referências

ZIMERMAN, D.E., Manual de técnica psicanalítica, 2004